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A Catarse no teatro grego e no teatro atual

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Muita gente fala sobre a catarse, muita gente sabe o que é a catarse no teatro moderno e no teatro grego, mas existe também muita confusão. Há quem ache que não existe mais catarse e que isso é cisa que ficou para trás no teatro grego antigo, aqui tento chegar a uma explicação razoável...


A discussão começou no orkut, com um tópico sugestivo de "O teatro atial é pós moderno?" eu logo pensei:

"Que estúpido isso, qualquer teatro que veio depois do modernismo é pós-moderno, ora pois pois" E pensei também que atual era com U mas não vamos provocar...

Mas resolvi ver qual era a do polvinho... logo de cara havia um cara prático como eu perguntado qual sentido daquilo tudo...

Bom, discussão vai e vem e vem e vai eis que nos deparamos com a tal da "Catarse" ou "κάθαρσησ" ou escreva como bem quiser você pegou o ponto...

Bom, como acabei numa discussão meio particular com o "Dr Robert" achei por bem responder a ele por aqui, já que aqui quem manda sou eu mesmo... Assim o Dr se quiser responder poderá fazê-lo nos comentários já que uma discussão na comunidade do orkut entre duas pessoas é coisa que acho pra lá de besta, melhor seria trocar e-mails...

O ponto principal da questão é a diferença de ponto de vista entre o que os gregos chamavam de catarse em seu teatro / drama / tragédia e o que nós chamamos... mas o ponto começou mesmo foi lá atrás, já que nem eles mesmos não chegaram exatamente a um acordo...

Primeiro que falo da Catarse dramática, a medicina não me interessa. (ok, ficou claro?)

Muito bem, em sua Poética, Aristóteles (ou o velho Ari, como chamamos por lá) definiu muito bem as regras para o drama, pois vejamos algumas (fonte poética, capítulo VI):

(...)na tragédia, a ação é apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores. Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções. (...)

Entenda por "purgação dessas emoções" a tal da catarse. Mas calma, vamos continuar a pesquisa;

A quinta parte compreende o canto: é o principal condimento (do espetáculo).


A tragédia empenha-se, na medida do possível, em não exceder o tempo de
uma revolução solar, ou pouco mais.


Ok. Paremos por um momento.

Se a catarse foi traduzida aqui por "purgação desses sentimentos" vamos ver o que é purgação para o português:


 substantivo feminino
1    ato ou efeito de purgar
2    evacuação provocada por um purgante
3    ato ou efeito de a alma expiar os pecados cometidos em vida
4    Derivação: por extensão de sentido.
imposição de sofrimento como pena; castigo, provação, penitência
5    qualquer secreção patológica que escorra de um órgão; corrimento, supuração
6    m.q. gonorréia

(fonte Houaiss)

Ah, dirá o sábio Dr e também o sábio leitor, está escrito bem aí: expiar os pecados cometidos em vida.

Oras bolas e carambolinhas!!
Lendo toda a definição me parece bem claro (muito mesmo!) que o termo "Purificação da Alma" é bem diferente de "purgação dos sentimentos". Não apenas porque não há pecados na etimologia grega (me recuso a explicar...) mas também porque todo o resto da definição tem uma conotação negativa.

A Catarse, caros coleguinhas, é um sentimento coletivo, aflorado pelo terror que finda as tragédias, este sentimento deveria aflorar por uma questão didática, para ensinar o cidadão como é a vida, como é a fortuna etc.

É óbvio que você pode discordar. O que você não pode fazer é pegar uma definição Aristotélica e aplicá-la em Eurípedes. Simplesmente porque a obra dum não se encaixa no perfil do outro.

Ou você é daqueles que pensa que os índios eram pecadores? Pois muito bem.

Repito o que disse na comunidade, não vejo catarse em obra teatral nenhuma. Ainda que eliminemos algumas regras da tragédia aristotélica (como a duração de "uma revolução solar = dia" por exemplo), Não temos tragédias que se sustentem como tal hoje em dia.

Comentei a esse respeito na crítica que fiz do filme "Tempos de paz" não sei se por conta do público ou da falta de confiança nos atores, mas hoje em dia não há uma só tragédia que não tenha momentos de comicidade "para não ficar muito pesado" como gostam de dizer...

Enfim, a minha conclusão é que o mais próximo que vi de catarse foi o espetáculo "Os Sertões" do Zé Celso, mais próximo não significa ter conseguido, mas nos tempos que correm, não sei qual seria exatamente a importância dela.

4 turradas:

Tonelo on 16 de setembro de 2009 14:57 disse...

Bom, pode ter sido um erro ter falado do Eurípedes, mas como Aristóteles diz que' ele é o mais trágico dos poetas" pensei que talvez pudesse chamar Eurípedes ao diálogo, aliás eu vejo uma nota ambígua em Aristóteles ao falar sobre Eurípedes, ele diz que suas tragédias terminam na " desdita", isso pode ser aplicado a Sófocles em ÉDIPO Rei, édipo em Colono, AJax, etc.

Blog Turrar on 16 de setembro de 2009 15:10 disse...

A questão é que ele introduz muita coisa no teatro e foge ao Aristóteles por isso por suas inovações de qualquer forma o que o Ari disse dele é isso mesmo "O mais trágico dos poetas"...

Vário do Andaraí on 17 de setembro de 2009 10:46 disse...

Gostei !

È caro este livro cujo atalho vou colar abaixo, mas vale a pena.

abbço

http://www.estantevirtual.com.br/Varios-Varios-Teatro-Atraves-da-Historia-o-2-Vols--23507737.html

Blog Turrar on 17 de setembro de 2009 11:07 disse...

Ficou a dica então...

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